Armas em punho. Os tiros foram
dados, mas não existem balas. O que será que vem desse revólver que estilhaça,
mas não é uma bala verdadeira?
Os tiros atingem as pessoas que
passam nas ruas, que nadam no mar, que voam no céu, as que estão em casa. Cada pedaço
da pólvora entra em cada pedaço de cada corpo e, assim, o envenena.
As pessoas que atiram nem sabem
que isso consiste em um tiro. Talvez nem vejam a bala atingindo as pessoas. Não
sabem ou não se importam se terá alvo. Essa bala que envenena o corpo é
dilacerante, é hipócrita.
Eis que um garoto cai no chão e,
com ele, cai tudo que o representa. Ninguém sabe da história dele, ninguém sabe
o que ele passou, ninguém sabe os seus motivos, as suas intenções, as suas razões,
os seus dilemas. Ninguém sabe nada sobre ele. Mas ele continua caído e ninguém
faz nada. Continuam compactuando com as balas, mesmo dizendo que são contra a
violência. Continuam caminhando pelas ruas, como se nada tivesse acontecido.
O garoto levanta do chão,
prossegue a sua vida. Mas as marcas da bala que não era bala estarão lá, com
ele, como um eterno companheiro com o qual tem que se aprender a viver.
As pessoas que o viram deitado no
chão continuam caminhando com anteolhos, até que uma bala ricocheteie e as
atinjam. Nesse momento, elas perceberão a dor de suas entranhas sendo
estilhaçadas. E do garoto deitado no chão, não se lembrarão de mais.
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