quinta-feira, 9 de maio de 2013

Ter ou não ter? Eis a questão!


Ser no mundo de hoje virou Ter. O Ser e o Ter confundem-se tanto que as pessoas nem conseguem mais desvincular “ser alguma coisa” de “ter alguma coisa”. O "ser ou não ser, eis a questão" de Hamlet (Shakespeare) não tem lugar mais nesse contexto. Agora, instantaneamente, sai um “ter ou não ter” ou, talvez, um “ter ou ter” a qualquer custo.
Podemos dar o exemplo daquela situação de uma entrevista de emprego, quando somos solicitados a responder “descreva a si mesmo”. Daí começa o grande questionamento (tanto por parte do que pergunta quanto por parte do perguntado).
A pessoa “perguntada” ou entrevistada pensa: o que sou? O que esta pessoa que está à minha frente quer que eu responda?
 “Bem... eu sou uma pessoa que gosta de desafios, que tenho muitos prêmios acadêmicos, que tenho imensa vontade de trabalhar, que tenho curso xyz, que tenho experiência em tais coisas e por aí vai”.
Percebemos que o verbo “ter” aparece com frequência em uma descrição do que seria o “Ser”. Por que não se consegue mais descrever quem se é? Por que não conseguimos olhar para dentro de nós? Tudo que somos está vinculado ao que temos.
Por parte do “perguntador” ou entrevistador é requerida uma competência de entrevistar o outro pelo que ele fez e pelo que ele tem. Isso que é mais importante para a empresa. Em meio a tantas entrevistas com objetivo de saber o que o outro é através de suas ações, o próprio entrevistador se afoga nesse mundo onde o Ser é Ter. Ele já nem questiona mais, afinal, se ele começar a questionar, provavelmente terá uma “crise” emocional e/ou será demitido.
Por fim, estamos imersos em uma cultura (que se torna invisível e imperceptível) que diz que o Ser é Ter. De tanto repetirmos esse repertório, não sabemos mais o que somos. Somos o que temos e isso já virou inconsciente. A consciência deixou o seu papel de questionadora nesse sentido. Ela foi formatada de modo que não conseguimos voltar ao estado anterior, quando a pergunta era “ser ou não ser”. A consciência está submersa e inerte no mundo das posses, está estagnada.
A pergunta que não quer calar: você já pensou sobre tudo isso ou “isso” nunca passou pela sua cabeça?
Por Ketilen Paes.

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